O problema de Mateus 17:21 e a “Batalha Espiritual”!!
O texto "Mas esta casta de demônios não se expulsa senão pela oração e pelo jejum." Mt 17:21 (ARC), é talvez o texto áureo quando o assunto é batalha espiritual, especialmente no meio pentecostal e neopentecostal, porém, a interpretação deste texto, no modo como é feito, é extremamente problemático e antes de entrar nas problemáticas, é necessário fazer um disclaimer.
De modo geral, lemos a bíblia de duas formas, ou e muito dificilmente de modo temática/sistemática ou expositiva/elo escriturístico. O que isso significa? Significa que vamos à bíblia para encontrar textos que validem nossas doutrinas, quando deveríamos ir ao texto e submeter ao texto as nossas doutrinas, o impacto disso é que para validar uma doutrina eu encontro dois textos, e proporcionalmente ignoro quatro. Estamos viciados em ler a bíblia de modo temático e esse é o nosso problema com as doutrinas.
Se considerarmos o texto de Marcos 9:29, onde ele trata desta ocorrência, o texto raramente vai trazer a palavra “demônio”, e devemos levar em consideração isso, porque o Evangelho segundo Marcos, é o primeiro dos 3 sinópticos a ser escrito. Vamos ao texto em grego:
Mateus 17:21 τοῦτο δὲ τὸ γένος οὐκ ἐκπορεύεται εἰ μὴ ἐν προσευχῇ καὶ νηστείᾳ
Transliteração: Touto de to genos ouk ekporeuetai ei mē en proseuchē kai nēsteia.
Tradução literal termo a termo:
touto de to genos = "mas esta casta/espécie"
ouk ekporeuetai = "não sai / não vai para fora"
ei mē = "a não ser / exceto"
en proseuchē = "por/em oração"
kai nēsteia = "e jejum"
Veja que não aparece a palavra demônio, porque possivelmente o tradutor ao traduzir o texto, fez uma correlação imediata com o exorcismo e optou por traduzir desta forma, mas se você costuma comparar versões, vai observar que em algumas traduções o versículo 21 está em branco, em ouros entre colchetes, significando que esse versículo não é unânime entre as cópias consideradas nas comissões de traduções, seja em Texto Crítico ou Texto Recebido.
Vamos observar a teologia do jejum. O jejum começou no Antigo Testamento como uma ferramenta para rebaixar o orgulho humano e elevar a dependência espiritual. Vejamos algumas finalidades pelas quais se jejuavam no AT:
O Jejum como Desmistificação da Autossuficiência (A Lei e os Primórdios):
Aqui, o jejum serve para lembrar ao homem que ele não se sustenta sozinho e que o pecado exige quebrantamento.
Moisés no Monte Sinai (Êxodo 34:28): 40 dias sem comer nem beber.
Significado teológico: O homem esvazia-se do sustento terreno para ser preenchido e sustentado diretamente pela Palavra e pela presença de Deus.
O Dia da Expiação / Yom Kippur (Levítico 16:29-31): O mandamento nacional de "afligir a alma".
Significado teológico: O orgulho humano é rebaixado pelo reconhecimento do pecado coletivo. Sem a misericórdia de Deus expressa no sacrifício, a nação pereceria; a fome física voluntária simbolizava essa dependência vital.
O Jejum como Quebrantamento do Orgulho Diante do Julgamento
Quando o julgamento divino era iminente por causa do pecado, o jejum entrava como a expressão máxima de humilhação e pedido de socorro.
O Rei Acabe (1 Reis 21:27-29): Um dos reis mais ímpios de Israel rasgou suas vestes, vestiu pano de saco e jejuou após ouvir a sentença de Deus pelo profeta Elias.
Significado teológico: O jejum foi tão eficaz em demonstrar a humilhação do rei que o próprio Deus disse: "Viste como Acabe se humilhou perante mim? (...) não trarei este mal nos seus dias".
A Cidade de Nínive (Jonas 3:5-9): Um império pagão e extremamente violento declarou jejum total (até para os animais) após a pregação de Jonas.
Significado teológico: O jejum nivela a todos — do rei ao mais simples cidadão. Ele remove a soberba imperial e coloca a criatura na postura correta de súplica diante do Criador.
O Clamor de Joel (Joel 2:12-13): Diante de uma praga devastadora, Deus ordena: "Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto".
Significado teológico: O jejum é a moldura externa do verdadeiro arrependimento interno que "rasga o coração e não as vestes".
O Jejum como Abandono de Armas Humanas (Crises Militares e Sobrevivência)
Quando o poder militar ou a estratégia humana falharam, o jejum era o ato de erguer as mãos e declarar: "Não podemos fazer nada sozinhos".
O Rei Josafá (2 Crônicas 20:3-4): Cercado por uma tríplice aliança inimiga imbatível, ele apregoou jejum em todo o Judá.
Significado teológico: Culmina na famosa oração do versículo 12: "Porque em nós não há força perante esta grande multidão (...) e não sabemos o que faremos; porém os nossos olhos estão postos em ti". O jejum foi o canal físico dessa declaração de impotência humana e confiança divina.
A Rainha Ester (Ester 4:16): 3 dias de jejum total antes de entrar na presença do rei persa sem ser chamada.
Significado teológico: Ester abriu mão do protocolo, da beleza e do favoritismo real para depender exclusivamente do favor sobrenatural de Deus.
Esdras e a Rota Segura (Esdras 8:21-23): Esdras teve vergonha de pedir soldados ao rei persa porque já havia testemunhado que Deus os protegeria. Ele proclamou um jejum junto ao rio Ava.
Significado teológico: Em vez de depender do braço forte de um exército pagão, o povo humilhou-se para buscar a escolta do Senhor.
O Jejum como Dor de Luto e Intercessão Profunda
O luto pelo pecado do povo ou pela perda de comunhão levava os líderes a uma identificação profunda com a dor.
Neemias por Jerusalém (Neemias 1:4): Ao saber que os muros de Jerusalém estavam caídos e o povo em miséria, ele assentou-se, chorou, lamentou e jejuou por dias.
Significado teológico: O jejum aqui mostra que o bem-estar do Reino de Deus era mais importante para Neemias do que o seu próprio conforto como copeiro do rei na Pérsia.
Daniel e o Cativeiro (Daniel 9:3): Daniel buscou ao Senhor com jejum, pano de saco e cinza para confessar os pecados da sua nação e clamar pelo fim do exílio.
Significado teológico: O justo assume as dores e faltas do seu povo através da mortificação do próprio corpo, gerando empatia e intercessão sacerdotal.
O Jejum de Abstenção Deliberada (Foco Espiritual Permanente)
O Jejum Parcial de Daniel (Daniel 10:2-3): Por três semanas, ele não comeu "manjar desejável", nem carne, nem vinho.
Significado teológico: Mostra que o jejum também pode ser uma disciplina espiritual prolongada de autocontrole, onde o homem decide voluntariamente não se banquetear com os prazeres do mundo para manter seus sentidos focados nas realidades celestiais.
Não observamos na narrativa bíblica, a prática do jejum como um meio de alcançar um super poder espiritual ou algo do gênero. Quando dizemos isso, não estamos diminuindo a realidade do mundo espiritual, apenas estamos tirando a prataria banheiro, estamos colocando cada coisa em seu lugar. Não podemos a partir de um único versículo definir uma teologia específica como o jejum para exorcismo, sendo que em uma construção narrativa, o jejum nunca atendeu essa finalidade, isso deve estar sempre em mente, nenhuma doutrina que vemos no NT é isolada do AT, mesmo em debates técnicos de assuntos sistemáticos, devemos recorrer em primeiro momento à teologia bíblica e verificar desde Gênesis a construção desse assunto, e considerando todos os textos e pormenores. Logo, em um segundo olhar, já com isso em mente, da construção exegética do texto de Mateus, da teologia do Jejum no AT, nos parece estranho jejuar para exorcismo.
A pergunta logo é, que casta é essa que precisa de jejum e oração?
Jesus está descendo do monte da transfiguração junto dos 3 discípulos, ao descer um pai roga a Jesus que cure seu filhos, uma vez que os 9 discípulos não conseguiram, o que vem a seguir é fundamental para nos dar uma luz:
v17 “…Jesus, respondendo, disse: Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei eu convosco, e até quando vos sofrerei?…”
v19 “Então os discípulos, aproximando-se de Jesus em particular, disseram: Por que não pudemos nós expulsá-lo?”
v20 “ E Jesus lhes disse: Por causa de vossa incredulidade; porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível.”
Em Marcos a ênfase também está na credulidade.
v19 “E ele, respondendo-lhes, disse: Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei ainda? Trazei-mo.”
v23 “E Jesus disse-lhe: Se tu podes crer, tudo é possível ao que crê…”
v28 “E, quando entrou em casa, os seus discípulos lhe perguntaram à parte: Por que o não pudemos nós expulsar?”
v29 “E disse-lhes: Esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração e jejum.”
Me parece muito plausível que Jesus esteja qualificando a “casta” não como um ranking de poder e níveis que precisam de algo especial para exorcizar, mas como a incredulidade. Observe que eu destaquei a pergunta de Jesus “Até quando estarei convosco?”, isso porque, em Marcos 2, quando Jesus é questionado sobre o por que os fariseus e os discípulos de João Batista jejuavam e os de Jesus não, Ele diz que “ …Podem porventura os filhos das bodas jejuar enquanto está com eles o esposo? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar; Mas dias virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão naqueles dias.” (Mc 2:19-20). Parece muito claro para Jesus que o jejum é a ferramenta para quebrar a incredulidade, e com seus dias finais nessa Terra, Jesus levanta o alerta ao discípulos da importância do jejum e a nova realidade messiânica.
Isso tanto é verdade que nas práticas apostólicas como em Atos 16:18, Paulo ordena ao espírito que saia em nome de Jesus Cristo. Em Atos 19:11-17, Lucas descreve exorcismos e também o fracasso daqueles que tentam usar o nome de Jesus como uma fórmula. Nenhum desses relatos apresenta o jejum como condição necessária para expulsar demônios. Atos 13:2-3 e 14:23 associam jejum e oração à missão e à designação de líderes, não um protocolo de exorcismo. Logo, ainda que seja uma possibilidade de leitura, me parece pouco sustentável.
Se ainda assim você olhe para estes argumentos e me diga, “Bruno, é bem legal o que você levantou mas eu sempre aprendi que temos que jejuar e orar porque tem demônios que não saem se não o fizermos isso”, ou ainda você me diga “Eu tive experiências, vi, ouvi, etc.” eu vou respeitar sua opinião, mas discordar porque nossas experiências não validam a bíblia e nem devem ser pontos extras em discussões do gênero, a bíblia é a regra de fé e não as experiências. Dito isso, eu preciso de algumas respostas, por exemplo, na grande comissão Jesus disse “E estes sinais seguirão aos que crerem: em meu nome, expulsarão demônios; [...]” Mc 16:17; em Mt 10:1 e Lc 9:1 Jesus dá autoridade aos discípulos para exorcismo e isso vemos do seguinte modo: “E João lhe respondeu, dizendo: Mestre, vimos um que em teu nome expulsava demônios,” (Mc 9:38; Lc 9:49); “E voltaram os setenta com alegria, dizendo: Senhor, pelo teu nome, até os demônios se nos sujeitam.” (Lc 10:17); “E isto fez ela por muitos dias. Mas Paulo, perturbado, voltou-se e disse ao espírito: Ordeno-te, em nome de Jesus Cristo, que saias dela. E na mesma hora saiu” (At 16:18).
Algumas perguntas que precisam ser respondidas: É no nome de Jesus ou em jejum e oração?Quem define a categoria dos demônios para definir se precisa de jejum e oração? De todas as ocorrências bíblicas de jejum e exorcismo, eles não estão correlacionados em 99% das aparições, apenas nesse texto de Mt 17:21, porque devemos nos apegar à exceção e não à regra?.
Veja, não é um tom provocativo, é uma questão de elucidação. Isso não significa esvaziar a realidade da batalha espiritual, desprezar o jejum ou diminuir a importância da oração. Pelo contrário, significa devolver a cada prática seu devido lugar na revelação bíblica. Jejuamos porque buscamos a Deus, humilhamo-nos diante dele, reconhecemos nossa dependência e nos dedicamos à oração; não porque possamos transformar uma disciplina espiritual em uma fórmula de controle sobre o mundo espiritual. Por isso, antes de transformar uma interpretação em doutrina, precisamos voltar ao texto, considerar o conjunto das Escrituras e reconhecer os limites daquilo que podemos afirmar. Nossa experiência deve ser examinada à luz da Palavra, nossa tradição deve permanecer aberta à correção das Escrituras e nossa teologia deve se submeter àquilo que Deus efetivamente revelou. A Bíblia não existe para confirmar as nossas conclusões; somos nós que devemos permitir que ela corrija as nossas.
A autoridade da Igreja não está em fórmulas espirituais, mas em Cristo; e a fidelidade da Igreja exige que sua teologia permaneça submetida à Palavra.
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